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Amor Líquido - Não desista de amar.

  • Foto do escritor: Ewerton Araujo
    Ewerton Araujo
  • 31 de jul. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 5 de set. de 2021

E ae, você já se sentiu amado esse ano, esse mês, na última hora, então tá no “Like” do seu post, e esse amor durou quanto tempo? uma hora, um mês, um ano talvez, ou foi aquela foto, que fez você amar ela ou ele, não, foi o texto dela revoltada com a vida postada contra aquele político que você odeia, foi aquela música que vocês gostam em comum, e você terminou com ela(e) como, bloqueando, Whatsapp, deixou de seguir, melhor ainda, foi porquê não se veste do jeito que você gosta, ou não tinha um celular que seja bom pra vocês tirarem fotos de vocês e mostrar o quanto se amam, ok , foi no primeiro atrito, demorou um minuto pra responder o Whatssap, ele(a) te presenteou mas não postou a foto do presente no Instagram, então não te ama tanto assim, foi no primeiro banho demorado, na primeira toalha não pendurada, no primeiro copo não lavado. Relacionamento significa atrito também, mas porque consumimos e quando não tem mais a mesma intensidade durante a rotina, descartamos e estamos prontos para o próximo “produto" ? no caso pessoa.


“Amor líquido é um amor “até segundo aviso”, o amor a partir do padrão dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfação e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfação. O amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente, pairando acima dele. Na sua forma “líquida”, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade.”(Isto é; Entrevista com Zygmund Baumam)



(Imagem 1. Site: Unplash - Jhonatan Borba)


O termo amor foi substituído pelo desejo, enquanto o objeto desejante não é alcançado, cada vez mais o desejamos, usando livremente um pouco da ideia de Schopenhauer, após alcançado talvez durante um bom tempo possa ser extremamente prazeroso, mas quando a validade do desejo acaba e começam os atritos do convívio, está na hora de desejar um novo alguém, e dentro desse apego frouxo em que os problemas começam, está na hora de terminar, desperdiçando o amadurecer e aprender a mudar com os hábitos do outro nos tornando mais tolerantes.


Dentro desse modelo mercadológico aumenta-se também consumo de bens, nesse “amor” insaciável e moldado pelo desejo a um desequilíbrio no consumo, que causa grande euforia em produzir mais roupas que possam ser mais elogiáveis, e fazer pessoas te “amarem” pelo seu estilo, pelo celular novo, pelo carro novo, transformando o amor em um consumo de bens, constituindo uma quantidade de amores que nem seu corpo pode aguentar, e quando essa energia acaba, ou a capacidade de comprar novas coisas para seu “amor”, o relacionamento também se esvai.



(Imagem 2 - Site Unplash - Sharon McCutcheon)


A questão é que o dispensável tornou-se mais seguro, dentro de um relacionamento em que “não existe apego” há uma falsa sensação de segurança, havendo um forte apelo ao medo de perder algo enquanto está preso a alguém.


Baumam estabelece um estado relacional em que o resgate da humanidade em cada um está com a relação com sigo mesmo, no amor próprio, “amar ao próximo como a si mesmo”, só é possível quando somos amados e nossas representações internas sobre os relacionamentos não foram constituídas de forma egoísta, ou seja, se não estabelecemos uma boa relação com o outro, com certeza devemos rever como estamos em relação a nossa própria estima.


“O amor e desejo são irmãos gêmeos, mas não são idênticos.”

(Gisele Leite; professora universitária e escritora do blog Âmbito Jurídico)


O primeiro é o desejo que seria a vontade de consumir o objeto, o amor seria o cuidado e o preservar do objeto. No chamado por Baumam como relacionamentos de bolso podemos discorrer um pouco sobre essa mesma referência de amor e desejo para consumo e consumismo. Um tem haver sobre necessidade outro somente com satisfação momentânea, não vivemos mais para construir algo de até que a morte nos separe, isso tornou-se fora de moda, as chamadas agora de conexões e não mais de relacionamentos que parece até uma palavra que assombra qualquer conversa sobre o assunto, como o próprio Baumam discorre sobre o psicoterapeuta Phillip Hodson que podemos nos relacionar ou nos conectar com mais pessoas em uma noite do que nossos pais na vida inteira deles.



(Imagem 3 - Site: Unplash - Gaelle Marcel)


O termo "consumo emocional" foi usado pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky (Amor Líquido Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos).


Nos relacionamos com pessoas que possuem hábitos de consumo extremamente parecidos com o nosso, o conceito de hiperconsumo, ocorre o que chamamos de depreciação, ou seja, aquilo que te seduzia muito no começo agora não possui mais o mesmo efeito, o que dava prazer agora é só a agonia da convivência, torna-se um ciclo vicioso e nocivo. Aquilo que seria nosso carpe diem fugiria totalmente do conceito passando para uma insegurança, que com a produção em massa, se organizaria a partir da nossa “maior” felicidade, uma mercantilização da felicidade, gerando um hiperconsumidor em busca da felicidade eterna, no consumir eterno, no universo de possibilidades de produtos e bens gerados a todo momento. A sociedade contemporânea seria definida dentro do paradigma hedonista versus o antidionisíaco, gerando a criação do chamado “super-homem”, perfil preocupado com o desempenho e com os prazeres dos sentidos.” (A FELICIDADE PARADOXAL: ENSAIOS SOBRE A SOCIEDADE DE HIPERCONSUMO - Fabio Scorsolini-Comin)


O consumo emocional é quando a “necessidade” de adquirir algo ultrapassa a questão material e atinge nossa subjetividade, teríamos que superar a nós mesmo e nos sentirmos bem com isso o tempo todo, o que é extremamente desgastante, pois é empregado a todas as classes sociais algumas não terão mais recursos para manter esse consumo, e nem energia psicológica para esse sentir-se bem eterno. Uma hora o consumo de relacionamentos e de objetos não te trazem mais prazer e propósito para continuar consumindo.


O proposto por Lipovetsky para chegarmos a uma exaustão do que denominamos de prazer eterno através do consumo na produção de bens e no culto ao ideal amoroso, com uma vida estável sem atritos e eternamente intensa, estaria na inversão hierárquica de valores na qual o hedonismo não seria um princípio estrutural da vida.



(Imagem 4 - Site Unplash - Toa Heftiba)


Baumam reforça sobre a questão do consumo de antidepressivos, a intolerância ao sofrimento cotidiano, pois passaram a acreditar que por uma visão mercadológica podem impor uma solução imediata para cada problema da vida delas, então o amadurecimento através de entrar dentro da consciência de sua dificuldade, identificar o porquê de seu sofrimento e enfim encontrar nele uma saída através do amadurecimento, foi substituído por encontrar uma loja que venda o produto certo que irá superar a dificuldade em seu lugar.


“Eu desejo que os jovens percebam razoavelmente cedo que há tanto significado na vida quando eles conseguem adicionar isso a ela através de esforço e dedicação. Que a árdua tarefa de compor uma vida não pode ser reduzida a adicionar episódios agradáveis. A vida é maior que a soma de seus momentos.” (Isto é; Entrevista com Zygmund Baumam)


Referência:


(A FELICIDADE PARADOXAL: ENSAIOS SOBRE A SOCIEDADE DE HIPERCONSUMO - Fabio Scorsolini-Comin)

Livro: Amor Líquido Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos.









 
 
 

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